Gerir o cansaço

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Gerir o cansaço

Mensagem  Páscoa em Ter Mar 10, 2009 10:35 am

Amigos:

Já há algum tempo que li este magnífico testemunho de vida, e hoje apeteceu-me relê-lo novamente e partilhá-lo convosco, tantas vezes "perdemos tempo" inutilmente , perante o que se segue tudo ganha uma nova dimensão.

Fernanda Páscoa



GERIR O CANSAÇO E A FADIGA NA DOENÇA REUMÁTICA, Uma perspectiva pessoal

Amigos,

Antes de me sentar aqui convosco para esta conversa de quem vive irmanado por problemas comuns, reflecti bastante sobre o tema que nos é proposto: gerir a fadiga e o cansaço na doença reumática - uma perspectiva pessoal. A minha reflexão parte do seguinte pressuposto: que posso eu dizer que outros não tenham dito já e, mais importante do que isso, em que medida o que quero dizer-vos pode ajudar-vos a viver melhor? Penso em tantos amigos, sobretudo nos mais jovens, para quem a vida é um desafio. Penso na Rita, na Sandra, na Susana, na Carla, no Tiago, no João... Penso em tantos! Pessoas, concretas, com quem me cruzo, com quem convivo mais ou menos intensamente, mas a quem estimo com carinho especial, porque, perdoem-me os outros, estes são mais iguais a mim.

Sofro de A.R. desde os dez anos de idade. Actualmente tenho cinquenta e seis. Isso, no meu caso, equivale a dizer que tomo corticosteróides, diariamente, há 46 anos e metotrexato há 14. No meu historial clínico há algumas mazelas que se vão desenvolvendo e resolvendo e outras que vêm para ficar, como hipertensão, osteoporose, tiroidite e insuficiência das supra renais. Já fiz operação às cataratas, a ambos os pés e tenho próteses totais em ambos os joelhos. Quem me vê encontra uma mulher de aspecto algo frágil, rosto rosado e redondo e mãos artríticas bastante deformadas. Quem me conhece de perto sabe que geralmente sou bem disposta e amiga de dar uma boa gargalhada. Acredito em mim mesma, ou antes, nas potencialidades que tenho como ser humano, mas sei-me extremamente frágil a nível físico, de vida precária, limitada bio, psicológica e emocionalmente, igualmente com todo o ser humano.

Sem falsos sentimentalismos, acho importante que a minha vida possa servir, não como paradigma, pois ninguém é modelo para ninguém, mas como prova vivida de que ser doente e com deformações articulares não é sinónimo de invalidez, nem de vida improdutiva, apesar de momentos e até períodos mais ou menos longos de desânimo, angústia, e sentimento de solidão. O que importa é que fazendo o balanço, posso dizer a todos os jovens que se confrontam com o diagnóstico de A.R ou outra doença reumática grave, é que valeu e vale a pena viver, apesar de todos os condicionalismos, sofrimento, cansaço e fadiga. Aos 18 anos não pensei conseguir chegar aos 40. Aos 40 não pensei chegar aos 50... e cá continuo, hoje até com menos queixas, graças às modernas cirurgias e medicação.

O cansaço e a fadiga são componentes importantes da AR e outras patologias reumáticas. Há dias em que nem forças para falar tenho. Há dias em que peço a Deus a bênção de não ter de me cruzar com ninguém com quem tenha de fazer “cerimónia”, tal é o esforço para dizer “olá” e “como vai?” Porque nesses dias eu “não vou”. Estou. Sou. Mas sem nenhuma vontade de Estar, porque me sinto tão sem forças que dir-se-ia que já nem Sou. Dias em que me parece ter-se esgotado de vez toda a força anímica. Sei que me entendem. Nessas alturas, recolho-me em mim mesma e pergunto vagamente: será que estou viva? Nem oiço o coração, nem o sangue parece circular-me nas veias. O cérebro parou? Não parou, embora às vezes pareça estar envolvido em algodão e só me apareça um mundo nevoento. Aí, só quero sentar-me debaixo de uma frondosa árvore e ficar lá, parada, até que os meus pés se fundam com a terra, com as raízes da árvore e a eternidade me atinja. Depois... ponho a minha música preferida, tomo um duche quente e perfumado, olho apenas o verde do meu pequeno quintal, leio qualquer coisa, se para tal tiver forças, não sei, não sei bem como dou verdadeiramente “a volta”, mas dou e penso que só cada um sabe o que lhe pode dar energia. De qualquer modo, penso, muito sinceramente que só há um segredo eficaz: AMAR A VIDA. O AMOR é uma energia sempre renovável, que não se acaba, pelo menos enquanto na balança entre o doloroso e o agradável, entre o feio e o belo, o mau e o bom, pese mais o melhor lado, o mais feliz. Quando tudo nos custa, quando NADA nos parece agradável, belo ou bom, por muito tempo seguido, então é altura de pedir ajuda especializada e não deixar que se esgotem as nossas capacidades até à paralisação total da vida activa. E por vida activa entendo utilização das capacidades físicas, intelectuais e espirituais, pois dessas matérias somos feitos.

Olhando estes quarenta e tal anos da minha vida com doença, compreendo que por amor me levantei, tantas manhãs, em jovem, para ir para as aulas – o prazer de ir à escola, de encontrar os amigos, era superior ao cansaço e à dor; por amor, casei e tive um filho – a alegria de o fazer foi superior ao medo de não ser capaz dos desafios; por amor a mim mesma, tirei um curso superior e mudei de profissão quando a saúde mo exigiu - a vontade de ser produtiva foi maior que o comodismo de aceitar ficar em casa; por amor, aceitei ser dirigente de uma associação de doentes - o desejo de ser útil é superior à vontade de ficar a viver só para mim... por amor, gosto da escrita, estou aqui a escrever, apesar de me doerem as costas, arderem os olhos e ter dormido muito mal...apesar do tal cansaço!

Portugal é um país de poetas. Diz um dos nossos grandes, Fernando Pessoa: "Valeu a pena? Tudo vale a pena, se a alma não é pequena." Claro que valeu a pena. Claro que vale a pena. Sempre.

O que não vale a pena, mas mesmo nada, é:

Viver sem autenticidade. Temos que expressar e viver aquilo que somos; se estou triste, devo expressar a minha tristeza, mas sem fazer o culto das ideias tristes. Se estou contente, devo partilhar a alegria. Pessoalmente, cansa-me muito fingir.

Viver a mando e apenas a contento dos outros: somos os co-autores das nossas vidas e protagonistas da nossa história pessoal; cansa imenso viver apenas de acordo com o que os outros esperam de nós e nunca dá certo.

Viver sem amigos. Ninguém pode viver apenas para si. Quanto mais recebemos mais obrigação temos de dar, a todos os níveis: apoio familiar, médico, social, cultura, bens materiais, artísticos, todos.

Aqui, faço uma chamada de atenção muito especial: tenho a certeza que o meu modo de estar na vida se deve ao amor incondicional que recebi da família, quer no início da doença, quer ao longo de toda a vida. A vida afectiva é, pelo menos para mim é, a força motriz de tudo o que é importante. O mundos dos afectos é tanto ou mais precioso para um ser frágil que a alimentação e os medicamentos. Porque só com alimentos e medicação, não se vive. Sobrevive-se, o que é terrível para qualquer ser humano.

Para terminar, amigos: gastem energia apenas com o que é importante, útil, que sintam ser verdadeiro e bom. Tudo o resto, não vale a pena, diz-vos uma avó que já passou por muitas canseiras, algumas verdadeiramente inúteis e estúpidas. Se conseguirem amar a vossa profissão ou qualquer actividade, o prazer sobrepõe-se à fadiga e ao cansaço. O Homem não foi feito para trabalhar, mas para produzir, ser criativo sobretudo em ideias inovadoras e que o façam evoluir. Quanto mais diversificados os centros de interesse, mais hipóteses temos de conseguir fazer coisas ultrapassando a barreira do cansaço.



Amem-se. Cuidem-se. Não violentem o vosso corpo, nem a vossa mente. E cultivem o espírito de humor. Porque a melhor prova da sintonia entre o físico e o psíquico é que nos sentimos logo com mais ânimo e como mais força se virarmos os cantos da boca para cima!



Fernanda Ruaz, 2005
(Texto candidato ao Prémio EULAR Edgar Stene 2005)


Última edição por Páscoa em Ter Mar 10, 2009 2:15 pm, editado 1 vez(es)

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Re: Gerir o cansaço

Mensagem  Teodósio em Ter Mar 10, 2009 11:45 am

Ora aqui está algo que merece ser lido!

Obrigada Fernanda cheers

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Re: Gerir o cansaço

Mensagem  Convidad em Ter Mar 10, 2009 2:59 pm

Obrigada Fernanda!

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Re: Gerir o cansaço

Mensagem  Convidad em Ter Mar 10, 2009 5:42 pm

cheers cheers cheers cheers cheers

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Mensagem  Convidad em Qua Mar 11, 2009 3:46 am

Isto sim, vale a pena ser lido com o coração principalmente.

Obrigada por nos dar esse imenso prazer, amiga Fernanda.

bjs

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Re: Gerir o cansaço

Mensagem  Páscoa em Qua Mar 11, 2009 4:11 am

...gastem energia apenas com o que é importante, útil, que sintam ser verdadeiro e bom. Tudo o resto, não vale a pena, ...

Estas últimas palavras deste testemunho incrível de vida e de força, tocaram-me tão profundamente que passaram a ser o meu lema de vida.

Infelizmente não tenho o dom da palavra, mas de vez em quando encontro pessoas e testemunhos verdadeiramente dotados que conseguem transmitir tudo o que me vai na alma.

Para quê polémicas, azedumes, sarcasmos, quando na realidade caminhamos todos no mesmo sentido, a vida é uma estrada tão perfeita, nós é que vamos tantas vezes por atalhos secundários.

Nós vivemos com a EA e não para a EA.

Um beijinho a todos,

Fernanda Páscoa sunny

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Re: Gerir o cansaço

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