A doença e os "nabos"

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A doença e os "nabos"

Mensagem  aassuncao em Seg Fev 16, 2009 1:44 pm

Sou o Albano Assunção, tenho 38 anos e resido em Espinho, onde nasci. Neste momento sou professor de informática, mas em Setembro serei apenas mais um desempregado. Tenho sérias dúvidas sobre se alguém irá ter paciência para ler tudo o que se segue até ao fim, mas cá vai...


Espondilite e prótese

Sofro de espondilite anquilosante e tenho uma prótese total da anca esquerda por necrose da cabeça do fémur. Sou sócio da Associação Nacional da Espondilite Anquilosante (ANEA) e faço hidroterapia duas vezes por semana na Piscina Municipal de Ovar, a título gratuito, graças ao acordo existente entre a ANEA e o seu Núcleo Regional de Ovar.


Os "nabos"

Os "nabos" do título são os médicos da equipa de ortopedia do Hospital Geral de Santo António (HGSA), no Porto. Mais à frente irão perceber porquê - e por que é que eu entendo que, mais do que "nabos", foram criminosos.


Ao princípio era a perna

Tudo começou pouco depois dos meus 20 anos. Ao princípio, eram apenas dores na perna esquerda. Às vezes, parecia que a perna se prendia. E eu não conseguia fazê-la andar; esperava um pouco e ela voltava "ao normal". Depois, vieram outros sintomas e sinais: não conseguia espirrar porque isso me fazia doer as costas e o peito; comecei a não conseguir cortar as unhas dos pés; custava-me estar muito tempo sentado ou muito tempo em pé; deixei de aguentar certo calçado; doíam-me constantemente as costas...

Experimentei de tudo: o médico de família receitou-me cápsulas, comprimidos, injecções, pomada - mas nada resultava; nas urgências do Hospital de Espinho davam-me injecções de Relmus com Voltaren, o que aliviava as dores apenas momentaneamente; gastei mais de 30 mil escudos em massagens... E no fim tudo voltava ao mesmo.


Na medicina interna

De modo que, depois de consultar vários médicos e dois ortopedistas privados, no Porto, consegui que um cirurgião do "Santo António" me fizesse entrar no serviço de Medicina Interna pela "porta do cavalo", abrindo assim o meu processo e dando-me acesso às consultas externas dessa especialidade.

Já não me recordo em que data entrei lá, mas, fazendo algumas contas de cabeça, admitamos que tenha sido por volta de 1991, tinha eu então 23 anos (há 15, portanto).

A doutora de Medicina Interna foi incansável, diga-se, mas pouco eficaz. Parecia estar quase a sofrer tanto quanto eu, pois não conseguia fazer um diagnóstico à minha doença. Conseguia perceber que a cabeça do fémur esquerdo estava a morrer mas não percebia porquê. Foi aí que tomei contacto, pela primeira vez, com a expressão "de origem idiopática". Portanto, eu tinha "uma necrose asséptica da cabeça do fémur esquerdo, de origem idiopática". Ela nunca pôs como hipótese a Espondilite Anquilosante. Sem saber o que fazer, enviou-me para a especialidade de Ortopedia.


Na ortopedia

Pois tem sido na Ortopedia do HGSA que tenho passado os anos. O problema da cabeça do fémur foi piorando: já não era a perna a prender, eram as dores intensas; para ir trabalhar, num emprego que ficava, a pé, a menos de dez minutos de casa, tive de chamar várias vezes um táxi; tinha de usar botijas de água quente para conseguir dormir; e cheguei a tomar cinco e seis comprimidos de Voltaren Rapid num só dia para poder aguentar as dores.

De tudo isto me queixava nas consultas externas de Ortopedia - disto e das dores nas costas, da dificuldade de locomoção, da minha postura estranha. Lembro-me de estar a olhar para uma fotografia minha deitado na praia, de barriga para baixo, e não achar normal a curvatura da coluna, facto que relatei aos médicos e que os mesmos desvalorizaram com um esgar irónico. Uma vez, cheguei mesmo a dizer a um dos doutores (nunca tive um fixo, iam-se revezando): "Sabe... os meus amigos acham-me muito torto... tenho as costas muito curvadas...". Ao que o mesmo respondeu: "Então e você liga áquilo que os outros lhe dizem?!". Eu ligo. Mas ele não ligou.

As consultas ao serviço da consulta externa de Ortopedia sucederam-se, e agora não se tratava já de descobrir a causa, claro, mas de ir observando a evolução da necrose do fémur e tentar adiar o máximo possível a cirurgia de implantação da prótese, "para não ser novamente aberto muito cedo", conforme me iam explicando. De maneira que, entre os 23 e os 32 anos, andei a ver a vida através de comprimidos de Voltaren e injecções nas urgências dos hospitais. A posição dos médicos ortopedistas do HGSA era que, "quanto mais tarde, melhor", tese que outros médicos contrariam hoje em dia, considerando que o doente tem direito a uma vida com o mínimo de qualidade, ou seja, sem dor.


A cirurgia

Assim não entenderam os meus ortopedistas. E por isso é que só em 2003 fui operado para implantação de prótese total (de cerâmica) na anca esquerda, depois de anos e anos de sofrimento. Abstenho-me de aqui relatar com detalhe o internamento (fui tratado abaixo de cão por uma enfermeira mentirosa), o pós-operatório (o médicou que me operou, José Figueiredo, "fugiu" no dia da minha alta, pelo que tive de ir consultá-lo a uma Ordem no Porto) ou a fisioterapia (para ela ser paga pela Segurança Social, eu teria de esperar cerca de dois ou três meses pela minha vez, pelo que paguei do meu bolso, numa clínica privada, esses primeiros tempos).

Três meses depois da cirurgia, já caminhava sem qualquer muleta; aquilo que, oficialmente, passei a não poder fazer era o que já não conseguia fazer antes por causa das dores: correr, saltar, etc.


A descoberta

E então, um dia, aconteceu algo que mudou tudo. Andava a doer-me constantemente o ombro direito, e eu, numa consulta de rotina na Ortopedia do HGSA, queixei-me disso ao médico (mais um) que me atendia. Observou-me, não viu nada de especial; mandou-me fazer um Raios-X. Regressei pouco depois ao consultório, ele já na posse da radiografia, olhando para ela. "Sabe, vê-se aqui um risquinho, mas não é nada de especial... Faça o seguinte: quando lhe doer de novo, volte cá!"

Não voltei, claro. Ou melhor, voltei para as consultas de rotina sobre a prótese. E marquei de imediato uma consulta em Espinho, no dr. Leitão, ortopedista, a quem expliquei como ficara indignado com o "quando lhe doer de novo, volte cá!". Pois o dr. Leitão, que por acaso até era médico no mesmo serviço do mesmo hospital (mas especializado em cirurgias aos joelhos), diz-me o seguinte, depois de trocarmos breves palavras: "Mal aqui entraste, notei que tinhas uma postura anormal; eu não quero afirmar coisas sem ter a certeza, mas vais fazer umas análises ao sangue e umas radiografias, porque desconfio que tens a doença de Bechterew."

E tinha. Doença de Bechterew, Espondilite Anquilosante. Estávamos em Junho de 2005.


A queixa

Perguntei ao dr. Leitão: "Como é possível que os seus colegas não tenham posto essa hipótese?!". Ele: "Se disseres que eu disse isto, eu nego; mas eles não descobriram porque são 'nabos'!".

Escrevo este "segredo" aqui pela primeira vez. O dr. Leitão negará, com certeza. Mas ver a frase aqui escrita dá-me algum gozo, porquanto os médicos ortopedistas que me atenderam ao longo de todos estes anos foram "nabos" e, mais do que isso, criminosos. Nem um diagnóstico foram capazes de fazer.

E quando, indignado ainda, e já depois de ter digerido a notícia, escrevi uma reclamação no HGSA sobre esta total incompetência, o chefe de serviço de Ortopedia respondeu algo como: "A prótese que lhe foi implantada é da maior qualidade." E nesse mesmo dia, quando, depois de escrita a queixa ("Vou agora revelar aos médicos qual é a minha doença"), confrontei o médico, este fez um número abolutamente pornográfico - mandou-me calar ("espere! espere! não diga!") e gritou: "Eu vou adivinhar! Você tem Espondilite Anquilosante!"

Eu ri-me na cara dele. Perguntei-lhe se não tinha vergonha. Pelos vistos, não tinha.


E agora?

Primeiro pensei abandonar o HGSA. Mas, depois de um chefe de serviço dizer "se não está contente com este hospital, vá procurar outro", resolvi ficar. Nem que seja só mesmo para chatear.

Continuo a ir às consultas de Ortopedia para vigilência da prótese, que por acaso está a descolar, ainda que de forma não preocupante. E fui enviado, entretanto, para as consultas de Medicina Interna (o regresso às origens!), onde sou atendido à pressa.

Dir-me-ão: "Mas tens de estar sempre a reclamar?". Eu tenho. Porque, se não fosse a incompetência dos médicos do HGSA, poderia ter começado a tratar-me da minha doença crónica, progressiva e incapacitante "só" 12 anos mais cedo.

Acho que 12 anos sao uma boa razão para "estar sempre a reclamar".

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Re: A doença e os "nabos"

Mensagem  Sporting em Seg Fev 16, 2009 6:11 pm

Esta é daquelas histórias dramáticas que reflectem o pior do sistema nacional de saúde. Infelizmente com a ea, o diagnóstico tardio (muitas vezes, escandalosamente tardio) é normal em todos os países do mundo.

Desejo-lhe uma melhor qualidade de vida daqui para frente. E acho que temos mais é que reclamar, principalmente de médicos incompetentes que a nossa sociedade teima em endeusar.

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Olá

Mensagem  Convidad em Ter Fev 17, 2009 2:30 am

De facto havia de ser obrigatório na medicina um curso paralelo sobre relações humanas,

São histórias como esta, que me deixam a certeza que há pessoas realmente na profissão errada.

Qualquer médico que desempenhe a sua profissão com toda a honra e dignidade, não deixa que casos como este aconteçam, felizmente que não são todos negligentes, neste caso foi azar, pois é tudo uma questão de dar com as pessoas certas e ser bem assistido, como merecemos.

Para si que foi vitima de alguns criminosos sem escrupulos, que não perdem tempo com um doente queixoso, pois não teem categoria nem brio profissional para o fazer, são apenas "nabos" como disse tão bem, desejo que mesmo assim, depois de já ter sofrido tanto para se tratar, agora que já sabe o que tem, espero que tudo lhe corra pelo melhor e procure quem o trate bem.

bjs

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Incrível

Mensagem  Teodósio em Ter Fev 17, 2009 3:56 am

Olá Albano!

Estou boquiaberta com a sua história... Todos nos temos queixado da incompetência dos médicos e do atraso de diagnóstico mas, como disse, a sua história vai para além da "simples" incompetência.
Seguramente, pela sua prótese deverá ser acompanhado pela ortopedia, mas os médicos não pensam enviá-lo para o serviço de reumatologia?

Desejo-lhe muita sorte e FORÇA!

Rita

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Re: A doença e os "nabos"

Mensagem  Páscoa em Ter Fev 17, 2009 7:17 am

Boa tarde Albano:


Não tenho palavras, nem comentários apropriados para tudo o que acabou de expor. Quando pensamos que já passámos por tudo e já ouvimos tudo, ainda nos surpreendemos com tanto sofrimento e injustiça.

Ofereço-lhe a minha solidariedade e desejo-lhe que agora encontre finalmente o seu "caminho".

Um abraço

Fernanda Páscoa

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Obrigado pela solidariedade

Mensagem  aassuncao em Ter Fev 17, 2009 9:51 am

Viva a todos!

Não imaginei que o meu texto fosse suscitar estas reacções, que agradeço. Assim como agradeço as palavras de solidariedade aqui escritas.

Só para esclarecer algumas dúvidas, deverei dizer que o HGSA não tem especialidade de Reumatologia e é só por isso que estou na Medicina Interna (apesar de ser minha intenção ser visto por um reumatologista em consultório privado - amigos sugeriram-me o dr. Lopes Vaz, no Porto).

Talvez graças à hidroterapia regular, as dores da EA não são tão constantes hoje em dia. O único comprimido que tomo, actualmente, é em regime de SOS e destina-se a aliviar a dor (não tenho presente o seu nome), que tanto se manifesta nos braços como nas pernas, nos joelhos, nas mãos, nas sacro-ilíacas, etc., etc.

A prótese total da anca esquerda está em processo de descelagem (a "descolar") mas os ortopedistas do HGSA não vêem razão para intervir cirurgicamente, pelo menos não para já. Já noto algumas dores na anca, que não sentia depois da cirurgia, mas é um facto que não são, ainda, insuportáveis.

Fui, entretanto, sujeito a uma primeira Junta Médica em Aveiro, em 2006. Atribuiram-me uma incapacidade superior a 60%, o que me permite ter benefícios fiscais (não faço descontos para o IRS), o dístico para estacionamento em lugares destinados às pessoas com mobilidade reduzida (não, não temos de andar de cadeira de rodas!) e, até à última alteração na lei, a isenção de imposto na compra de viatura automóvel nova (sobre isto, irei escrever em breve um texto noutra parte deste forum, baseado no parecer de um advogado que consultei, pago do meu bolso, e que espero seja de utilidade para todos os que aqui vêm).

Como saberão, tenho ainda o benefício de, por exemplo, no concurso nacional de professores, concorrer ao abrigo de uma quota de 10% destinada às pessoas com mais de 60% de incapacidade (aproveito para esclarecer: serei desempregado em Setembro próximo porque o Governo decidiu não aceitar mais a candidatura de qualquer professor não profissionalizado, o que, infelizmente, é o meu caso).

Como me disse um dia o dr. Leitão, na sua imensa sabedoria, "neste tipo de doenças, como a EA, é preciso ter a cabeça limpa".

É, enfim, o que eu tenho tentado fazer. E o mesmo espero de todos vós.

Abraços,
Albano

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Reumatologia

Mensagem  Teodósio em Qua Fev 18, 2009 2:58 am

Olá Albano!
Eu descobri este fórum recentemente e tem-me ajudado imenso. É bom poder desabafar Smile

Apesar do Hospital onde está não haver Reumatologia, eles podem referenciá-lo para outro hospital no Porto com esse serviço. Ou então o médico de família. Para mim foi muito difícil mas penso ter conseguido agora e estou à espera da primeira consulta (que emoção!!!).

Fique bem!!!
Rita

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Pedido de Informação

Mensagem  scolari em Qui Jun 25, 2009 9:49 am

Desde já as minhas desculpas se não é este o sitio para o pedido que faço.

Fui operado pelo Dr Leitão no Santo António também por volta dessa data.

Necessitava de saber onde o Dr Leitão se encontra a dar consultas em Espinho pois queria marcar uma consulta com ele, desta vez não para mim, mas para a minha mãe.

Obrigado pela atenção.

scolari

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Ola Albano

Mensagem  Susana em Qui Jun 25, 2009 6:22 pm

Fiquei chocada com a sua historia... Nao e' facil fazer o diagnostico da EA mas 12 anos?! Eu tive sorte pq a minha mae tem EA desde os seus 25 anos e eu, aos 21 tive uma crise muito forte (primeiros sintomas em forca!) que me deixou de cama quase o verao inteiro; claro foi pior porque a imobilidade so agrava...A minha mae bem me dizia mas nao tinha coragem de mexer um dedo, tudo doia. Tb insistiu que eu fizesse a analise para ver se tinha herdado EA, mas eu n queria ver a verdade, adiei por uns meses e depois la foi inevitavel confrontar a verdade.
Claro que se a minha mae nao tivesse EA, concerteza andaria ate hoje com maus diagnosticos...

Boa sorte Albano, espero que lhe estejam reservadas so coisas boas daqui para a frente.

Susana

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Re: A doença e os "nabos"

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